Joias Escondidas do Algarve Que a Maioria dos Turistas Nunca Encontra

Joias Escondidas do Algarve Que a Maioria dos Turistas Nunca Encontra

O Algarve recebe milhoes de visitantes todos os anos e a grande maioria concentra-se nos mesmos cinco ou seis pontos da costa, desde a gruta de Benagil ate a marina de Vilamoura, passando pela Praia da Rocha e a zona de Albufeira. Sao destinos que merecem a visita, sem duvida, mas representam uma fracao muito pequena daquilo que a regiao tem para oferecer. Depois de anos a viver aqui e a percorrer cada recanto do sul de Portugal, fui compilando uma lista de lugares que raramente aparecem nos guias convencionais e que costumam deixar uma impressao muito mais profunda do que os classicos de sempre.

Cacela Velha — Provavelmente o Recanto Mais Bonito do Algarve

Cacela Velha e uma aldeia minuscula empoleirada numa falesia na costa leste do Algarve, com pouco mais de vinte casas, uma pequena igreja, os restos de uma fortaleza e um unico restaurante com esplanada sobre o mar. Abaixo da falesia estende-se a lagoa da Ria Formosa, e quando a mare baixa aparece um banco de areia que forma uma piscina natural de agua quente, cristalina e pouco profunda que faz lembrar as Caraibas, com a diferenca de que aqui um robalo grelhado custa oito euros. Levei la os meus pais na primavera passada e a minha mae, que tem opiniao formada sobre praticamente tudo, ficou em silencio durante varios minutos a contemplar a vista, o que diz bastante sobre o efeito que este lugar produz nas pessoas. Chega-se em cerca de 15 minutos a partir da fronteira espanhola, embora no verao convem ir cedo porque o pequeno parque de estacionamento a entrada enche antes das dez da manha.

Dica: A melhor hora para visitar e de manha cedo ou ao final da tarde, quando a luz sobre a lagoa e espetacular. No restaurante da aldeia, pede dourada ou robalo grelhado com salada e vinho branco da casa, uma das refeicoes mais honestas e acessiveis de todo o Algarve.

Alte — Uma Viagem no Tempo ao Portugal de Ha Cinquenta Anos

Alte fica nas colinas a norte de Albufeira e produz a sensacao genuina de recuar meio seculo, com ruas empedradas tao estreitas que da para tocar nas duas paredes ao mesmo tempo, casas caiadas com as chamines pintadas a mao que sao emblema do Algarve, e figueiras que brotam das fendas do calcamento. Na parte baixa da aldeia existe uma nascente natural chamada Fonte Pequena cuja agua se acumula formando uma piscina gratuita rodeada de arvores centenarias, um alivio extraordinario quando o termometro marca 38 graus em pleno julho e o ambiente se enche de familias locais, criancas a chapinhar e alguma avo sentada a sombra a comentar o calor. A melhor epoca para visitar Alte e fevereiro, quando a floracao das amendoeiras cobre as colinas de branco e rosa e a aldeia celebra uma festa local que ainda nao foi descoberta pelos circuitos turisticos organizados.

Dica: Nao te limites a Fonte Pequena, segue o trilho sinalizado ate a Fonte Grande, um passeio de cerca de 20 minutos por entre pomares e muros de pedra que termina numa cascata rodeada de vegetacao. Leva fato de banho se fores no verao porque ambas as pozas convidam a um mergulho num dia de calor.

Monchique e Caldas — A Face de Montanha do Algarve

A existencia de montanhas no Algarve costuma surpreender quem so conhece a faixa costeira, mas a Serra de Monchique, a cerca de 30 minutos para o interior a partir de Portimao, e um mundo completamente diferente. A temperatura desce a medida que se sobe pela estrada, e ao chegar a vila de Monchique, a 450 metros de altitude, a paisagem de sobreiros, barraquinhas de medronho a beira da estrada e uma verdura densa e fresca fazem com que pareca outra regiao de Portugal. Depois de varios dias na costa tostada pelo sol, o contraste e quase terapeutico.

Embora a vila tenha o seu charme, a verdadeira descoberta e Caldas de Monchique, uma aldeia diminuta encaixada num vale arborizado e construida em torno das fontes termais que os romanos ja utilizavam ha dois mil anos. A combinacao de um pequeno spa historico, um ribeiro, arvores enormes e uma quietude dificil de descrever gera uma sensacao de calma que se nota fisicamente passados poucos minutos. Vale a pena subir tambem ate a Foia, o ponto mais alto do Algarve com 902 metros, de onde as vistas num dia limpo alcancam a costa de ambos os lados da peninsula.

Dica: Na vila de Monchique, procura um restaurante que sirva frango piri-piri grelhado no carvao com batatas fritas caseiras, o prato estrela da zona e as melhores versoes sao preparadas em fornos de lenha tradicionais. Experimenta tambem o medronho, a aguardente local destilada do fruto do medronheiro, embora convem toma-lo com moderacao porque e consideravelmente mais forte do que parece.

Ilha da Culatra — Onde os Carros Nao Existem

A Ria Formosa tem varias ilhas barreira e a maioria dos turistas escolhe a Ilha de Tavira por ser a mais conhecida, mas a Culatra oferece uma experiencia mais autentica e muito menos massificada. Chega-se em trinta minutos de ferry a partir de Olhao e ao desembarcar nao ha carros nem estradas propriamente ditas, apenas ruas de areia que conduzem a uma aldeia piscatoria de casas coloridas, gatos por todo o lado e um par de restaurantes cuja ementa depende inteiramente do que os barcos trouxeram nessa manha. Caminhando para sul atravessam-se as dunas ate chegar a Praia da Culatra, uma praia que se estende ate perder de vista e onde numa terca-feira de junho e perfeitamente possivel contar uma dezena de pessoas em todo o areal. A ilha vizinha de Armona e ainda mais tranquila, embora o ritmo ideal seja dedicar o dia a uma so ilha e completar a jornada com um almoco longo de volta a Olhao. Se a visita coincidir com esta zona da costa, Tavira merece uma paragem obrigatoria de pelo menos meio dia.

Dica: Leva comida e agua suficiente para a praia porque nao ha infraestrutura depois das dunas. Para o almoco de volta em Olhao, os restaurantes junto ao Mercado Municipal de Olhao servem marisco fresco a precos muito razoaveis, especialmente as ameijoas a bulhao pato (ameijoas com alho, coentros e azeite).

Silves — Quando Isto Era a Capital

Muito antes de Faro ganhar relevancia e de Lagos se tornar no que e hoje, Silves foi a capital do Algarve sob dominio mouro, uma cidade maior do que Lisboa na altura e um centro genuino de poesia e saber. Custa imaginar esse esplendor ao percorrer o que agora e uma vila tranquila junto ao rio onde o maior acontecimento semanal e o mercado de sabado, mas o imponente castelo de arenito vermelho que coroa a colina permanece como testemunho dessa epoca. Percorrer as muralhas contemplando os laranjais que se estendem encosta abaixo e imaginar este lugar ha oitocentos anos, quando era uma das cidades mais importantes da Peninsula Iberica, e uma das experiencias mais evocativas que o Algarve tem para oferecer. O museu arqueologico adjacente, construido em torno de uma cisterna mourisca, e surpreendentemente completo.

Silves e tambem o lugar indicado para provar a autentica cozinha do interior algarvio, longe do marisco sobrevalorizado das zonas turisticas. Um frango piri-piri num restaurante familiar junto ao rio ou uma cataplana preparada como manda a tradicao demonstram que a gastronomia portuguesa nao precisa de ser cara para ser excelente. Em agosto a cidade celebra a sua Feira Medieval, um evento em que a vila inteira se veste a rigor e as ruas se enchem de justas, cuspidores de fogo, javali assado e quantidades generosas de hidromel, uma mistura entre recriacao historica rigorosa e celebracao popular que funciona extraordinariamente bem.

Dica: A entrada no castelo custa apenas uns euros e inclui acesso ao museu arqueologico. Para almocar, procura os restaurantes na zona ribeirinha e pede o frango no churrasco (frango grelhado no carvao), a especialidade local. Se visitares em agosto, a Feira Medieval costuma realizar-se durante a segunda semana do mes e a entrada nos espetaculos e gratuita.

Palacio de Estoi — O Que E Que Isto Esta Aqui a Fazer?

A escassos dez minutos a norte de Faro surge um palacio rococo de fachada rosa com jardins ornamentados, escadarias revestidas de azulejos e fontes de marmore que parece ter sido teletransportado da Riviera Francesa para uma aldeia portuguesa sem explicacao aparente. Os jardins sao de acesso gratuito e estao praticamente vazios durante a maior parte do ano, o que acrescenta uma qualidade quase surreal a visita. Mesmo ao lado, literalmente na parcela contígua, encontram-se as ruinas romanas de Milreu com os seus mosaicos de peixes, fundacoes de termas e restos de templo que abrangem cerca de dois mil anos de historia. As duas visitas juntas nao levam mais de noventa minutos, nao custam nada, e combinadas com uma manha em Faro compoem um dia completo em que noventa e oito por cento dos turistas que passam pela zona nem sequer pensam.

Dica: O palacio funciona atualmente como pousada (hotel historico), mas os jardins e a fachada podem ser visitados livremente sem necessidade de ser hospede. As ruinas de Milreu estao abertas de terca a domingo e a entrada custa cerca de 3 euros. Combina ambas as visitas com um almoco numa tasca de Estoi para uma manha perfeita fora dos circuitos habituais.

O Trilho dos Sete Vales Suspensos — O Melhor Passeio a Pe do Algarve

Este trilho de 5,7 quilometros percorre as falesias entre Vale Centeanes e Praia da Marinha, perto de Carvoeiro, passando por arcos naturais de rocha, grutas colapsadas, enseadas escondidas e tapetes de flores silvestres durante a primavera. Depois de o ter percorrido umas oito vezes continua a haver pontos onde e impossivel nao parar e ficar a olhar para a vista. A dificuldade e moderada e qualquer pessoa habituada a caminhar consegue completa-lo sem problema, mas a ausencia total de sombra obriga a prudencia com os horarios no verao, sendo o mais recomendavel ir antes das nove da manha ou depois das cinco da tarde, levar bastante agua e proteger-se do sol. A Praia da Marinha no final do percurso aparece regularmente nas listas de melhores praias da Europa com toda a razao, embora as proprias falesias por onde se passa para la chegar sejam possivelmente ainda mais impressionantes do que a praia em si.

Dica: O trilho e linear, nao circular, pelo que convem deixar um carro em cada extremo ou contratar um taxi para o regresso. Leva pelo menos um litro e meio de agua por pessoa, chapeu e calcado com sola aderente. Se fores na primavera, entre marco e maio, as falesias cobrem-se de flores silvestres e a temperatura e ideal para caminhar.

Sagres — Onde a Europa Acaba

O extremo sudoeste do continente europeu conserva uma atmosfera que os romanos ja consideravam sagrada ha dois mil anos, e ao colocar-se no Cabo de Sao Vicente contemplando o Atlantico a rebentar contra falesias de setenta e cinco metros sem nada mais do que oceano entre aquele ponto e a America, percebe-se perfeitamente porque pensavam assim. A fortaleza de Sagres ergue-se sobre um promontorio que se adentra no mar como um punho de pedra, o lugar a partir do qual o Infante D. Henrique planeou as suas grandes viagens de exploracao e onde ainda se conserva uma misteriosa rosa dos ventos talhada no chao cuja origem ninguem conseguiu explicar por completo. O vento sopra constantemente, a paisagem transmite uma crueza elemental que nao se encontra em mais nenhuma parte do Algarve, e as praias proximas de Tonel e Beliche oferecem algumas das melhores condicoes de surf de toda a costa portuguesa.

Dica: No parque de estacionamento do Cabo de Sao Vicente ha um homem com uma carrinha que vende sandes de chourico grelhado que se tornaram quase tao famosas como o proprio farol. Compra uma, come-a a olhar para o oceano, e percebe porque ha coisas que nao precisam de estrela Michelin para serem memoraveis. Para jantar, a vila de Sagres tem varios restaurantes com bom peixe fresco a precos razoaveis.

Centro Historico de Loule, Para La do Mercado

O mercado de Loule com as suas cupulas vermelhas de inspiracao mourisca, as bancas de peixe fresco e o animado mercado cigano de sabado la fora e um dos atrativos mais conhecidos do interior do Algarve. O que surpreende e que a maioria dos visitantes se limita ao mercado e vai-se embora sem se aventurar pelo centro historico que se estende logo atras, um bairro de muralhas medievais, oficinas de caldeireiros que continuam a trabalhar o cobre com as mesmas tecnicas de ha decadas e ruas com uma sensacao de vida local genuina que a faixa costeira perdeu ha muito tempo.

Dica: A manha de sabado e o melhor momento para visitar porque o mercado interior e o mercadillo exterior funcionam em simultaneo. Dentro do mercado municipal, compra queijo de cabra curado, figos secos e mel de alfarrobeira (alfarroba), tres produtos emblematicos da zona que tambem funcionam como excelentes recordacoes para levar para casa.

Salinas da Ria Formosa ao Por do Sol

Mais um momento do que um destino no sentido convencional, as salinas que se estendem entre Olhao e Tavira oferecem uma das experiencias mais memoraveis do Algarve durante a hora que antecede o por do sol, quando a agua rasa adquire tonalidades rosas e douradas e os flamingos permanecem imoveis nas lagoas como figuras de um quadro. Os trilhos da Quinta de Marim, perto de Olhao, constituem a forma mais simples de aceder a esta zona onde, alem de flamingos, e possivel avistar colhereiros, garcas e numerosas outras aves aquaticas. Mesmo para quem a ornitologia nao seja especialmente atrativa, a qualidade da luz sobre as salinas aquela hora do dia e algo verdadeiramente extraordinario.

Dica: A Quinta de Marim e o centro de educacao ambiental do Parque Natural da Ria Formosa e a entrada custa apenas uns euros. Leva binoculos se tiveres e chega entre uma hora e meia e meia hora antes do por do sol para apanhar a melhor luz. Os meses de outono e inverno sao os melhores para avistar flamingos em maior numero.

Uma Nota Sobre Como Se Deslocar

O carro e indispensavel para chegar a estes lugares, ja que a rede de autocarros liga as principais cidades mas nao chega a aldeias como Cacela Velha, nao sobe a Serra de Monchique e nao para no inicio do trilho dos Sete Vales Suspensos. A recomendacao e nao tentar cobrir demasiados pontos num so dia, escolher dois destinos no maximo, deixar tempo para um almoco longo pelo meio e aceitar que nao e possivel ver tudo numa unica viagem. Para quem procure uma base que ofereca mais do que um quarto de hotel, com cozinha equipada, terraco e espaco suficiente para descansar a serio, gerimos alojamentos de ferias por todo o Algarve que facilitam enormemente este tipo de exploracao pausada da regiao.

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